Créditos de carbono: a ficção contabilística
- 05 agosto 2026, quarta-feira
- Gestão

Francisco Sousa Machado, CRO da Bling Energy
Ao longo de mais de 14 anos a trabalhar em ambientes comerciais de alto crescimento, aprendi que os mercados tendem a encontrar atalhos: soluções que parecem resolver um problema sem exigir mudança real. Para muitas empresas, os créditos de carbono tornaram-se exatamente isso - um atalho.
A ideia, em teoria, é simples: uma empresa emite CO2, compra um crédito e esse crédito representa uma tonelada de carbono evitada ou removida noutro lugar do mundo. No papel, o balanço parece fazer sentido. Contudo, a atmosfera não funciona em folhas de Excel.
Quando um crédito não corresponde a uma redução real, comprovada e permanente das emissões, nada muda no mundo físico. A atmosfera não reconhece intenções nem certificados. O CO2 emitido permanece no ar durante décadas, continua a reter calor e a contribuir para o aquecimento global. Na prática, trata-se apenas de uma ficção contabilística.
É importante dizê-lo com clareza: existem projetos sérios, técnicos competentes e um esforço crescente para tornar este mercado mais rigoroso, com certificações independentes, auditorias mais exigentes e metodologias mais transparentes. Isto é positivo e deve ser reconhecido. Ainda assim, mesmo a melhor compensação possível continua a ser diferente de uma redução direta.
Compensar não é o mesmo que evitar. Plantar árvores hoje não anula emissões que estão a aquecer o planeta agora, sobretudo quando sabemos que muitas dessas árvores podem nunca chegar à maturidade, podem arder num incêndio ou ser abatidas daqui a 20 anos. Compensar significa (...)
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