Bioenergia

FOTO ELMAR GUBISCH/ SHUTTERSTOCK
”(…) devo tudo ao oceano; é ele que me fornece a electricidade, e a eletricidade dá ao Nautilus o calor, a luz, o movimento, a vida, numa palavra (…)”
Júlio Verne, Vinte Mil Léguas Submarinas. 1870
Orgulhoso das suas invenções, o capitão Nemo resumia assim o modo de obtenção da energia necessária para o seu submarino Nautilus. O mar era uma fonte de energia primária, donde extraía os elementos com que produzia as baterias de sódio-mercúrio, antecipando o tipo de pilhas hoje em investigação.
A transição para modelos energéticos mais sustentáveis constitui um dos maiores desafios científicos, tecnológicos e socioeconómicos do século XXI. O aumento da procura global por energia, aliado à necessidade de mitigar as alterações climáticas e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, tem impulsionado o desenvolvimento de fontes renováveis conciliadoras de segurança energética, competitividade económica e sustentabilidade ambiental. Neste contexto, a bioenergia assume um papel estratégico na diversificação da matriz energética e da promoção de uma economia de baixo carbono. “A Visão Estratégica de Portugal para a Recuperação Económica 2020-2030” contempla a criação de uma cadeia de centrais de biomassa e biorrefinarias a partir de investimento na floresta, desenhando um modelo que assegure a sua limpeza e a valorização dessa biomassa residual.
A bioenergia distingue-se pela capacidade de converter recursos de origem biológica —biomassa florestal, resíduos agrícolas, sólidos, urbanos, subprodutos agroindustriais ou efluentes pecuários — em formas úteis de energia: eletricidade, calor, biogás, biometano e biocombustíveis líquidos. A valorização destes recursos naturais contribui simultaneamente para a gestão sustentável de resíduos, para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e para o fortalecimento dos princípios da economia circular.
Nas últimas décadas, este sector tem-se vindo a consolidar com o desenvolvimento de processos termoquímicos e bioquímicos mais eficientes, a optimização da digestão anaeróbia, a produção de biocombustíveis de segunda e terceira geração, ou a implementação de biorrefinarias integradas que demonstram o elevado potencial da bioenergia na resposta aos desafios da descarbonização e da sustentabilidade. Refira-se ainda a integração destas tecnologias com sistemas inteligentes de gestão energética e com outras fontes renováveis, criando redes energéticas mais resilientes e eficientes.
Nem tudo são rosas: a expansão da bioenergia deve ser acompanhada por uma abordagem multidisciplinar que considere os seus impactos ambientais, económicos e sociais. A sustentabilidade da produção de biomassa, a preservação da biodiversidade, a utilização racional do solo, a segurança alimentar e a avaliação do ciclo de vida dos processos energéticos constituem aspetos fundamentais para garantir que o desenvolvimento deste setor ocorre de forma equilibrada e cientificamente fundamentada. Por isso, as políticas públicas têm de ser baseadas em evidência científica, aliada a investimento contínuo em investigação, desenvolvimento e inovação. Só isso assegura soluções tecnologicamente robustas e ambientalmente responsáveis.
Sejamos perseverantes na regulamentação das formas de energia e na criação de processos industriais amigos do ambiente. Em 1954 Norbert Wiener reflectia acerca dos meios de controlo sobre aquilo que nos cerca, esperando que não se reduzissem a uma melhoria do nosso nível de vida e comodidades, mas assegurando a continuidade da vida humana face ao esgotamento de certos recursos naturais.
Reunimos aqui artigos de destacados especialistas que exploram diferentes dimensões da bioenergia (fundamentos científicos, processos tecnológicos; aplicações industriais, políticas energéticas e perspetivas de mercado). A todos muito obrigada, e em especial ao co-editor desta edição, Doutor Francisco Gírio, conhecedor profundo desta temática, ficando a dever-lhe a riqueza deste número da revista.
Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL
Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para info@industriaeambiente.pt
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