Compreender a experiência de calor extremo em Istambul através das redes sociais

FOTO ©OSMAN KÖYCÜ / UNSPLASH
O dia 23 de julho de 2025 foi declarado o dia mais quente da Turquia por numerosos boletins noticiosos. Nas redes sociais, os tweets publicados no X em resposta às condições de calor extremo em Istambul oferecem um rico conjunto de dados qualitativos que transforma experiências individuais numa narrativa coletiva. Para interpretar estes textos, o processo de codificação foi conduzido através de uma abordagem temática. O quadro de codificação teve como objetivo tornar visível que o calor é construído não apenas como um fenómeno meteorológico, mas como uma experiência multicamada com dimensões corporais, espaciais e relacionadas com a governança.
Consequentemente, os tweets foram codificados em torno de seis eixos temáticos principais:
- Corpo: impactos físicos e psicológicos diretos do calor nos indivíduos (dificuldade em respirar, sensação de queimadura, preocupações de saúde, temperatura percebida)
- Cidade: associações entre o calor e componentes ambientais urbanos, tais como superfícies de betão/asfalto, falta de sombra e condições de vento
- Infraestruturas: a vulnerabilidade dos sistemas (ar condicionado, eletricidade, abastecimento de água, serviços públicos) sob stress de calor extremo
- Emoção e Linguagem: estratégias de adaptação expressas através de raiva, surpresa, humor e ironia
- Ação e Solidariedade: apelos à precaução, avisos para não sair à rua e expressões de responsabilidade coletiva para com os animais no espaço público
- Enquadramento: interpretações mais amplas relacionadas com a crise climática, a governação e os regimes de trabalho
Esta abordagem de codificação tornou possível interpretar os tweets não simplesmente como expressões de “queixa”, mas como manifestações quotidianas da experiência climática urbana vivida.
Os tweets publicados em 23 de julho de 2025 demonstram que o calor foi percebido como mais do que um valor numérico num termómetro; pelo contrário, foi experienciado como uma condição incorporada que limitava a respiração, intensificava o desconforto e perturbava as rotinas diárias (Corpo).
Esta experiência corporal foi continuamente reproduzida através da relação estabelecida com a cidade. Descrições como o asfalto a “libertar vapor”, o calor a atingir os rostos “como chamas”, ruas sem sombra e o vento a “soprar como um radiador” indicam que o calor não foi percebido como um fenómeno meteorológico natural, mas como uma forma amplificada de intensidade produzida pelas superfícies urbanas (Cidade).
O calor extremo não afetou apenas os corpos e o espaço urbano, mas também colocou visivelmente sob pressão as infraestruturas da cidade. Relatos de aparelhos de ar condicionado avariados, falhas de eletricidade, água quente a sair das torneiras e interrupções nos serviços públicos deslocaram o calor de uma simples questão de “conforto térmico” para uma crise operacional urbana. Neste sentido, o calor foi experienciado não como um teste de resiliência individual, mas como um fator de stress que revelou os limites da capacidade sistémica (Infraestruturas). (...)
Autora Elif Nur Sari
Investigadora no Departamento de Arquitectura
Paisagista da Universidade de Istambul-Cerrahpasa
Douturada em Arquitetura Paisagista
Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 158, maio/ junho 2026, dedicada ao tema "Adaptação das cidades às alterações climáticas"
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