Descarbonização e resíduos emergentes

FOTO THOMAS RICHTER/ UNSPLASH

As políticas para a descarbonização da economia, com o objetivo de mitigar as alterações climáticas e reforçar a segurança energética, têm vindo a alterar o paradigma de consumo de equipamentos, componentes e materiais. A eletrificação progressiva com integração massiva de fontes renováveis, a digitalização de processos e serviços e a adoção de novos modos de mobilidade estão a provocar, com grande rapidez, mudanças significativas no padrão de utilização de matérias-primas e na composição material dos bens colocados no mercado. Esta transformação traduz-se, ao longo de todo o ciclo de vida, na geração de tipologias de resíduos emergentes, que são mais heterogéneas, com maior conteúdo de materiais tecnológicos e, frequentemente, com substâncias críticas que exigem soluções de gestão e valorização inovadoras.

Importa sublinhar que os desafios não se restringem ao fim de vida dos equipamentos. Uma parte substancial dos impactes e resíduos surge a montante, na extração e no processamento mineral. Pelo que, a transição energética, para ser efetivamente sustentável, deve integrar a gestão responsável destes resíduos desde a origem, evitando a simples deslocação do problema para fases anteriores do sistema produtivo.

Nas energias renováveis, os desafios de circularidade são particularmente relevantes. Na produção eólica, alguns geradores recorrem a ímanes permanentes que incorporam metais de terras raras, nomeadamente neodímio e disprósio, enquanto as pás são tipicamente fabricadas em materiais compósitos de resinas reforçadas com fibras. Estes são difíceis de reciclar, o que tem levado, historicamente, a soluções de gestão menos valorizadoras. 

Na produção fotovoltaica, apesar de a maior parte da massa dos módulos ser constituída por vidro e alumínio, existem polímeros encapsulantes e camadas funcionais aderentes que dificultam a separação e condicionam a pureza dos materiais recuperados. Além do silício, utilizam-se metais condutores e para soldas, como prata, cobre e estanho, bem como, em certas tecnologias, ainda elementos menos comuns (por exemplo, telúrio, selénio, índio e gálio). No fim de vida, o desafio passa por separar e recuperar materiais com qualidade e rendimento suficientes para reintrodução na indústria, garantindo simultaneamente a gestão segura de componentes e substâncias potencialmente problemáticas.

No armazenamento de energia elétrica, a tendência para a utilização de baterias de ião de lítio implica recolha e triagem cuidadosas por razões de segurança, desmontagem, separação de frações metálicas e plásticas e tratamento de massas onde se concentram materiais de elevado valor, como lítio, níquel, cobalto e grafite. A qualidade e o destino destas frações dependem de processos cada vez mais especializados, bem como de informação fiável sobre a química e o histórico da bateria. Consequentemente, os veículos elétricos exigem estratégias de desmantelamento e tratamento em fim de vida mais exigentes do que as aplicadas aos veículos com motor de combustão, reforçando a necessidade de capacidades técnicas, de normalização de procedimentos e de cadeias logísticas adequadas. (...)

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 156, janeiro/ fevereiro de 2026

Fernando Castro

Autor da coluna Resíduos

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