Segurança no setor da água

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”(…) pela Rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, […] alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rossio, onde bebe um copo de água de Caneças, e repousa até que a tarde refresque (…)”
Eça de Queirós, “Carta a Madame de Jouarre” em Correspondência de Fradique Mendes, 1900

Tudo parecia simples na vida do comendador Pinho, um autêntico flâneur queirosiano, com tempo para passear, e para se refrescar antes de seguir para o luxo – a Avenida! À época, a boa água de Caneças era servida em bilhas, e a sua presença no Rossio, centro nevrálgico de Lisboa, mostra bem como era apreciada por diferentes grupos sociais. Nada melhor, numa tarde quente, do que aquela água fresca, inodora, transparente, incolor, segundo o citado comendador.

Para além desta água, abastecia Lisboa a que os galegos aguadeiros iam buscar aos chafarizes e às fontes da cidade para transportarem até às casas particulares. Estes imigrantes apagavam também os incêndios, destruidores de edifícios e vidas, mas não apagavam os “fogos do coração”, transportando cartas de amor de e para apaixonados. Em Coração, Cabeça e Estômago, Camilo Castelo Branco, significativamente, retrata o aguadeiro no papel de moço de recados. Com a constituição da Companhia das Águas Livres, em 1868, e a chegada do telefone a Portugal, no final do século XIX, os aguadeiros transmissores de segredos viram a sua profissão progressivamente esvaziada.

Nem sempre a água fresca foi apreciada: uma crónica sobre a Guerra dos 100 anos, que opôs França e Inglaterra nos séculos XIV e XV, conta que um possante combatente francês, depois de ter trucidado vários inimigos, bebeu um pouco de água fresca servida por uma jovem… e sucumbiu! Ou seja, na época, a água doce era vista com reservas, devendo ser bebida com cuidado.

É difícil abastecer em quantidade e qualidade uma população. Relatos bíblicos referem que, cerca de 700 a.C., Jerusalém foi cercada pelo exército assírio, sendo rei de Judá Ezequias. Previdente, mandou escavar na rocha um túnel para levar água a um reservatório na cidade, ainda hoje existente, o reservatório de Siloé. Mandou também obstruir as nascentes de água circundantes de Jerusalém, para impedir a sua utilização pelos assírios. Mantinha assim o abastecimento de água à população e limitava o abastecimento do inimigo.

Os bloqueios de centros habitacionais em contexto bélico constituíram sempre um problema para o abastecimento de água potável. Na Idade Média, para conquistar uma fortaleza cercavam-na, levando à escassez de víveres e de água, ou mesmo envenenando a água, e despoletando epidemias. No ataque de cristãos portugueses e cruzados do Norte da Europa a Silves, em 1189, os muçulmanos foram-se rendendo por terem “os papos e as tripas secas”, segundo as crónicas. No interior das fortalezas e cidades, a importância da água potável materializa-se por exemplo na localização de poços e cisternas em zonas salvaguardadas no interior fortificado. Para a eventualidade do envenenamento de água usava-se corno de unicórnio moído, segundo as crenças medievais, capaz de destruir o efeito de qualquer veneno. Refira-se ainda a importância das cisternas com aberturas/respiradores para assegurar a qualidade da água, e que recolhiam também as águas pluviais. Minimizava-se assim dois problemas a que os cercos conduziam: as doenças gastrointestinais e as epidemias.

As tabacarias já não servem água de Caneças, mas as guerras da água mantêm-se, sendo necessário proteger a sua qualidade para a sobrevivência das populações.

A escassez da água, os efeitos das alterações climáticas e o crescimento de zonas urbanas têm evidenciado o valor crítico da água. A água não é apenas uma preocupação ambiental, mas um dos factores que define o poder, a segurança e a prosperidade económica das populações conferindo-lhe um valor geoestratégico que não ficou retido nos anais da história.

Face à simplicidade cristalina de bebermos um copo de água, raramente temos a consciência do risco da sua escassez e como isto aumenta a probabilidade de conflitos, de fome e de migrações em massa, podendo até determinar a relocalização de cidades, tal como anunciado há meses relativamente a Teerão. O controlo sobre os rios e barragens transfronteiriços permite que os Estados exerçam poder, manipulando caudais, e pressionar os vizinhos.

A infraestrutura hídrica, incluindo barragens e estações de tratamento, são alvos importantes em casos de conflito. Veja-se o caso da Ucrânia e a guerra em curso no Médio Oriente: as instalações dessalinizadoras foram dos primeiros alvos de bombardeamento.

Neste número, contámos com a participação de generosos especialistas que partilharam connosco as suas experiências e visões sobre a segurança da água. Por isso, e esperando que um dia possamos partilhar um valioso copo de água num café no Rossio ou na Av. da Liberdade, no páteo da água da antiga Companhia das Águas Livres, agradeço-lhes, reconhecida.

Editorial da Indústria e Ambiente nº 157, março/abril 2026, dedicada ao tema "Segurança no setor da água"
Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

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