Monitorização dinâmica do conforto térmico exterior (OTC)

FOTO PAULO FREITAS/ UNSPLASH
Esta contribuição apresenta uma introdução concisa aos campos inter-relacionados da bioclimatologia humana e da climatologia urbana, enquadrando estas áreas no contexto mais amplo das tendências globais de urbanização e da atual crise climática.
Com base numa visão geral da trajetória de investigação do autor, este trabalho sublinha a importância de estudar o conforto em espaços exteriores através de uma abordagem dinâmica. Esta metodologia permite análises espaciais que consideram a variabilidade das condições de exposição e das respostas dos participantes em inquéritos de conforto térmico exterior (OTC), ao passo que os métodos tradicionais se baseiam em estações fixas de medição. Aplicações futuras deste método dinâmico em ambientes exteriores incluirão investigação sobre os efeitos das ondas de calor durante percursos térmicos, a identificação de áreas de refúgio térmico em contextos urbanos e a avaliação da forma como estas condições influenciam a perceção de prazer térmico/potenciais de alestesia.
Introdução
Vários autores demonstraram que o crescimento urbano conduz à formação de Ilhas de Calor Urbano (ICU), que correspondem a diferenças na temperatura do ar entre cidades e áreas rurais circundantes. A literatura descreve frequentemente este fenómeno como um resultado natural da expansão urbana.
Oke (2002), na sua influente obra Boundary Layer Climates, explica de que forma a dimensão da população urbana se relaciona com a intensidade do efeito de ilha de calor, demonstrando que, à medida que a população aumenta, as ICU se tornam mais intensas. Atualmente, a urbanização está a aumentar em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, onde as taxas são cerca de 3,5 vezes superiores às registadas nos países desenvolvidos. Prevê-se que, até meados do século XXI, esta diferença aumente para cinco vezes (ONU, 2026).
Dado que muitos países em desenvolvimento se situam em regiões tropicais, torna-se fundamental desenvolver políticas de ordenamento urbano que promovam um crescimento organizado, tendo simultaneamente em conta as alterações climáticas. À medida que estas se intensificam, as cidades e os decisores políticos precisam de agir rapidamente para reduzir riscos. As cidades podem desempenhar um papel determinante na promoção de soluções quando os governos nacionais e globais são lentos a responder. Um melhor conhecimento das interações entre o desenho urbano, o uso do solo e o clima local pode contribuir para reduzir o efeito de ilha de calor, diminuir as emissões e limitar o impacto das cidades no aquecimento global.
Recentemente, tem-se verificado um aumento da investigação sobre conforto térmico em espaços exteriores, especialmente no domínio da biometeorologia humana, com o objetivo de apoiar um planeamento urbano mais sensível ao clima. A utilização de índices de conforto para avaliar o conforto térmico em espaços abertos pode melhorar a qualidade de vida urbana e incentivar a utilização desses espaços. Nikolopoulou et al. (2001) verificaram que espaços bem concebidos são mais atrativos do ponto de vista económico. Por esta razão, as condições climáticas locais são consideradas fundamentais para tornar os espaços abertos mais apelativos e mais utilizados (Nikolopoulou & Lykoudis, 2006; Krüger et al., 2019).
Este tema assume especial relevância na atualidade, uma vez que as ondas de calor estão a tornar-se mais frequentes em várias regiões do mundo. As gerações futuras terão de se adaptar a novas condições climáticas e, como referem Koppe et al. (2004), tal exigirá políticas públicas robustas para proteger as populações vulneráveis. Os fenómenos meteorológicos extremos devem ser integrados nos planos de emergência, com base em projeções climáticas futuras e em monitorização e análises de risco rigorosas.
Os eventos meteorológicos extremos podem abrandar o crescimento económico, prejudicar a saúde e ameaçar a segurança alimentar, sobretudo nas populações mais vulneráveis. O excesso de calor nas cidades agrava o aquecimento global, aumentando os riscos para a saúde de pessoas, animais e plantas. Contribui igualmente para a propagação de doenças como a dengue, que se tornou um problema significativo em várias regiões.
Biometeorologia humana
Em 1970, a ISB (International Society of Biometeorology) definiu a biometeorologia como o estudo de como fatores físicos, químicos e ambientais provenientes da atmosfera terrestre e de ambientes semelhantes afetam os organismos vivos e os sistemas (Tromp, 1974).
A biometeorologia humana centra-se na forma como o estado do tempo e o clima afetam as pessoas, tanto do ponto de vista da saúde como da medicina. Pode ser estudada segundo várias abordagens:
a) fisiológica, analisando os efeitos do clima em indivíduos saudáveis;
b) sociológica, considerando impactos no turismo, cultura, comportamento e saúde pública;
c) patológica, centrada nas doenças;
d) arquitetónica e de planeamento urbano, incluindo o estudo dos microclimas urbanos e do conforto térmico humano;
e) transporte marítimo, analisando microclimas para pessoas e carga no mar.
A biometeorologia humana só recentemente ganhou maior reconhecimento, sobretudo devido aos riscos para a saúde associados às alterações climáticas. O mais recente relatório Lancet Countdown on Health and Climate Change destaca esses riscos e sublinha a necessidade de ação para proteger a saúde pública (Romanello et al., 2021). Como referem Fdez-Arroyabe e Tápanes Robau (2017), o estudo da relação entre clima e saúde tornou-se um tema científico central.
Os efeitos de crises globais como as alterações climáticas, fenómenos meteorológicos extremos, novas doenças como a COVID-19 e as persistentes desigualdades sociais e económicas tornam necessária uma ação global, com atenção às especificidades locais (...)
Autor Eduardo Krüger
Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 158, maio/ junho 2026, dedicada ao tema "Adaptação das cidades às alterações climáticas"
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