Situações de contingência nas unidades de tratamento de água

  • 25 maio 2026, segunda-feira
  • Água

FOTO I.BANDURA / UNSPLASH

Como nota prévia, importa referir que o convite para esta reflexão sobre situações de contingência surge no início de janeiro, numa altura em que estávamos longe de imaginar a força dos eventos climáticos que se registariam semanas depois, e o impacto que estes teriam nas operações dos vários sistemas geridos pela Be Water, com particular destaque para a concessão da Águas de Ourém.

Ao mesmo tempo, estes eventos serviram um segundo propósito. O de alargar o espectro associado às situações de contingência, normalmente atribuído a situações de avaria, falha operacional ou degradação de desempenho que comprometa, total ou parcialmente, a função de um determinado sistema. Ora, no decurso das últimas semanas, foi necessário responder a um conjunto de situações extraordinárias, como os elevados danos provocados pelas sucessivas intempéries, as falhas no fornecimento de energia elétrica, a ausência de comunicações e a impossibilidade de acesso físico às infraestruturas.

Acresce que este evento surge menos de um ano depois do apagão elétrico generalizado que afetou grande parte do país e da Península Ibérica, no dia 28 de abril de 2025, o que, no mínimo, nos obriga a pensar na necessidade de revisitar as matrizes de risco (gráficos de probabilidade/impacto) da nossa atividade.

Sobre isto, importa referir que o Decreto-Lei n.º 22/2025 transpõe para o ordenamento jurídico nacional a Diretiva (UE) 2022/2557, e estabelece o quadro legal para a identificação, designação e reforço da resiliência das entidades críticas e das respetivas infraestruturas críticas. Sendo certo que, no setor da água e saneamento, essa competência reside na Comissão de Planeamento de Emergência da Água e Resíduos, é nas próprias Entidades Gestoras (EG) que deve começar a reflexão sobre o seu grau de preparação para estes eventos excecionais.

Indo mais além nessa exigência, esse exercício de autoanálise e antecipação deve constituir uma prioridade de qualquer EG, na medida em que se afigura crucial para garantir a segurança, qualidade e continuidade do serviço, assim como a sustentabilidade ambiental – com a proteção de todas as etapas, desde a captação da água, tratamento, distribuição, até à recolha e tratamento de águas residuais.

O setor e as unidades de tratamento de água

As especificidades deste setor essencial, nomeadamente as assimetrias geográficas e sazonais da disponibilidade de água, as pressões associadas ao crescimento populacional, as alterações climáticas e as alterações da qualidade de água na origem constituem, em simultâneo, um desafio e um risco da atividade. A estes riscos somam-se outros, como eventos súbitos de contaminação, falhas estruturais e operacionais na sequência de fenómenos imprevistos ou de carácter intencional como atos de sabotagem ou terrorismo. Por outro lado, a digitalização dos serviços, uma transformação estratégica e fundamental para tornar a gestão dos recursos hídricos mais eficiente, sustentável e resiliente e impulsionada por planos estratégicos como o PENSAARP 2030, tem como aspeto menos favorável a forte dependência da comunicação de dados e a maior vulnerabilidade a ciberataques capazes de comprometer a operação.

Em particular, as Unidades de Tratamento de Água (UTA) assumem um papel essencial no abastecimento de água, dado que, qualquer falha grave nestes equipamentos pode afetar vários milhares de pessoas, incluindo clientes sensíveis, representando assim um risco evidente para a saúde pública, a segurança e o funcionamento de infraestruturas críticas como hospitais e clínicas, infantários e escolas, lares de terceira idade, instalações da proteção civil e instalações militares.

É neste campo que os planos de contingência constituem um instrumento vital para a gestão operacional e estratégica das UTA, permitindo uma resposta estruturada, eficaz e atempada a situações de avaria, mau funcionamento ou eventos excecionais.

As suas diferentes dimensões de risco tornam os planos de contingência instrumentos complexos, capazes de incorporar aspetos técnicos de operação, aspetos organizacionais, legais e de governança. Exigem o envolvimento dos diferentes níveis na estrutura interna das EG, uma boa articulação com um conjunto dispersos de entidades no exterior e uma comunicação com a população que seja transparente, assertiva e indutora de confiança em situações de crise.

Face aos eventos ocorridos durante este último ano, as questões que se colocam são óbvias: estão os planos de contingência do setor preparados para os atuais riscos climáticos e energéticos? Como responderam as EG a estes eventos e o que podem fazer para melhorar essa resposta em futuras situações de crise? (...)

Autores Frederico Martins Fernandes, CEO e Administrador na Be Water
Paula Moreira, Diretora de Operações na Be Water

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 157, março/abril 2026, dedicada ao tema "Segurança no setor da água"

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